RAUL SOLNADO (1929-2009)

É com pesar que damos conta da morte de uma das figuras mais ilustres do humor português!
Raul Solnado deixa-nos aos 79 anos de idade após uma vida cheia de marcos na televisão e no teatro portugueses com a clara mensagem que a vida de um actor não acaba no aqui e no agora! Deixa de estar presente fisicamente, mas não deixa de permanecer na memória de todos aqueles que com ele conviveram e actuaram ou foram "assistidos" por ele.
Mais do que um actor, Raul Solnado foi um autor do humor de crítica política e social.
Em 1960 adapta para o português o sketch espanhol A Guerra de 1908 que se torna um sucesso popular através do seu disco que atinge níveis recordistas, ultrapassando inclusivé as músicas de Amália.
Mais tarde, juntamente com Carlos Cruz e Fialho Gouveia (também este já falecido), marca sem dúvida o panorama político português ao criar figuras de caricatura populares no célebre programa Zip Zip que se manteve no ar entre Maio e Dezembro de 1969 nos serões televisivos.
Mais recentemente, participou com Bruno Nogueira em Divinas Comédias que a RTP exibiu no sábado em homenagem ao actor.
Raul Solnado, avô da jovem actriz Joana Solnado que participa actualmente na novela da TVI Sentimentos, é tido pela maior parte dos colegas e amigos como um homem que se preocupava com a forma de representar. Era um crítico, mas sobretudo um amigo e um "grande senhor", como alguém terá dito.
Solnado morreu sábado, dia 8 de Agosto de 2009 vítima de complicações cardiovasculares. O seu coração não aguentou mais, mas a memória essa viverá para sempre! Actualmente, ocupava o cargo de Director da Casa do Artista, espaço que inagurou juntamente com Armando Cortez e Manuela Maria.
Centenas de pessoas prestaram a sua última homenagem ontem por todo o cortejo desde o Palácio das Galveias até ao Cemitério dos Olivais, onde foi cremado pelas 20 horas.
Foram várias as personalidades que por lá passaram, desde Tozé Martinho a Fernanda Serrano, de Cavaco Silva a Ramalho Eanes, passando por Pedro Santana Lopes, todos eles expressando o seu pesar e homenagem pelo homem que deixa mais pobre o panorama cultural português.
Frases de Raul Solnado:
'Nós, os do teatro, somos vendedores de sonhos. O público compra um bilhete e não leva nada para casa (...). Aqui leva sonhos'
'Não sei o que as pessoas pensam de mim – em princípio, não pensarão mal –, não sei onde estou sentado no seu pensamento'
'Uma figura pública é sempre um manjar. Tem de ser moralmente muito sólida para suportar os ecos das notícias que lhe chegam'
'Minha mãe morreu quando eu nasci. Não a ter conhecido é a maior tristeza da minha vida'
'Corri com o meu pai todos os teatros de Lisboa (...). Posso dizer que os dentes me nasceram nas plateias dos teatros'
'Não gostava daqueles dramas nem do cenário, sempre o mesmo do princípio ao fim. Gostava da revista, tinha música, cor, alegria'
'Desde miúdo que me perseguia o som do riso, é um som bonito'
REACÇÕES
'Era um dos melhores homens que conheci. Gostava muito mais dele como pessoa do que como artista mas também ri muito com o actor''
Manuel Freire, pres. da Sociedade Portuguesa de Autores
'A única coisa que o fazia parar de rir era não poder trabalhar'
Eunice Muñoz, actriz
'Um companheiro sempre bem-disposto e conversador, amante de tudo o que era português, tal como sardinhas assadas, vinho tinto e fado'
Mariza, fadista
'Inovou sempre, fruto também da sua inquietude, era intelectualmente um homem curioso, atento ao que o rodeava'
Alina Vaz, actriz
'Conseguia sempre fazer os outros felizes. Era de uma enorme generosidade'
Vítor de Sousa, actor
'Era um homem de uma bondade como já não há, aliada a um talento... Se calhar este País não percebeu a sua grandeza'
Baptista-Bastos, escritor e jornalista
'Um dos portugueses por quem tive maior admiração. Só tenho pena de não ter estado mais tempo com ele'
A. Pedro Vasconcelos, realizador
Fonte: Correio da Manhã, edição online de 10/08/2009